Nossas críticas (e todas já publicadas por nós) agora estarão aqui:
Continuem comentando, criticando, e dando sugestões para crescermos ainda mais.
Obrigado por nos acompanhar nesse 1 ano e meio de REVISTO.
nos vemos no outernative. :)

X-Men: O confronto Final (X-Men: The Last Stand, EUA, 2006)

por André Graciotti
Em meio à interminável safra de filmes baseados em heróis de quadrinhos, X-Men 2 e Homem-Aranha 2 sempre foram meus favoritos. Os dois filmes conseguiram unir inteligência e um pouco de maturidade dramática em meio à ação como nenhum outro filme de super-herói conseguiu (ok, Batman Begins também tem lá seu crédito por tentar criar uma história "pé-no-chão" para o personagem. Mas o desenvolvimento da trama acabou traindo sua própria proposta por concluir de forma tão boba e infantil).
É uma pena que o, supostamente, último filme da trilogia dos mutantes peque justamente onde seus anteriores acertaram: a atenção aos seus personagens. Em X-Men: O Confronto Final (dessa vez dirigido por Brett Ratner, substituto de Bryan Singer - que largou o projeto para dirigir o novo longa do Super-Homem), há pouco espaço para tantos personagens em cena. Há mutantes demais e desenvolvimento de personagem de menos. Resultado: O roteiro parece correr para resolver tantos conflitos paralelos e acaba por não concluir satisfatoriamente nenhum deles. Quase todos os novos mutantes que aparecem no filme não têm espaço para resolver seu conflitos pessoais devidamente, participar de algum diálogo importante ou simplesmente ter alguma significância no roteiro. Anjo, Fanático, Colossus, e até mesmo o Fera...apesar de possuirem habilidades interessantes, são simplesmente desperdiçados na trama, que não dá a mínima para eles, a não ser oferecer uma ponta nas cenas de ação. Brett Ratner é incompetente em fazer com que algum deles tenha a relevância e a presença em cena que o Noturno teve no segundo filme (e que acaba sendo o maior desfalque neste).
A premissa desta vez, sobre um remédio chamado de "A cura", que retiraria o gene X dos mutantes transformando-os em humanos, soa como uma repetição inversa do primeiro filme (naquela ocasião, uma máquina que transforma humanos em mutantes), apesar de melhor apresentada e muito mais coerente.
A trama é guiada quase que exclusivamente por Wolverine e Tempestade (obviamente fazendo jus ao salário das duas maiores estrelas do elenco). Tempestade não é nem nunca foi um dos X-men mais expressivos (a atuação apenas razoável de Halle Barry sempre contribui para isso), e a atenção demasiada a ela acaba desperdiçando linhas de roteiro que poderiam ter sido dedicadas a outros mais interessantes. Já Hugh Jackman prova mais uma vez porque o Wolverine é o personagem de sua carreira, roubando todas as cenas em que participa.
Até mesmo a Fênix, que prometeu ser a grande estrela desde o final-gancho do segundo filme, mal abre a boca e só entra em cena pra destruir coisas.
Porém, é notável que os roteiristas parecem conhecer os defeitos de seu próprio texto. A saída encontrada por eles para suprir a falta de empatia com os personagens (que não é desenvolvida em momento nenhum, com exceção de um leve triângulo amoroso que serve pra "adocicar" a trama), e que acaba sendo o grande ponto positivo e salvação do filme, é chocar o público com situações de fragilidade dos heróis. Há mortes de alguns personagens que conhecemos e simpatizamos, e estas acontecem em cenas bastante carregadas e intensas dramaticamente. Causam impacto por serem tão surpreendentes e corajosas, e são os únicos momentos do filme em que realmente nos importamos com algum deles.
X-Men: o Confronto Final tem ação mais intensa, barulhenta e ininterrupta que seus antecessores, mas na preocupação em agradar os fãs dos quadrinhos e encaixar novos mutantes na trama, acabou deixando de lado o que mais importa no universo dos X-Men - mais ainda do que sua inteligente discussão política-filosófica: o desenvolvimento dos personagens (algo que foi atingido quase com perfeição no segundo filme - e que ainda é, de longe, o melhor dos três). Tudo aqui é raso, vazio, de resolução fácil, sem maior envolvimento emocional. A correria, as explosões, os efeitos visuais e os momentos dramáticos não suprem a falta de alma do filme. O roteiro é corajoso em matar alguns dos protagonistas, mas é preguiçoso em desenvolver todo o resto. Nem nas tentativas de tiradas de humor consegue ser bem-sucedido. Depois de dois bons filmes em sequência (coisa inédita em se tratando de adaptações de quadrinhos), a trilogia dos mutantes merecia ser encerrada de forma melhor.
Resta esperar os "filmes-solos" do Wolverine e Magneto para ver se a franquia X-Men ainda tem futuro. Isto se os boatos sobre tais filmes forem confirmados. Se não, esperemos por Homem-Aranha 3 e Superman Returns, que estréiam nos próximos meses. Wolverine e cia ficaram devendo desta vez.

O Código Da Vinci (The Da Vinci Code - EUA - 2006)

Por Bruno Reis
Como filme, O Código Da Vinci é um livro bem mais ou menos. A verborrágica história da epopéia de um professor americano, Robert Langdon (Tom Hanks, canastrão como eu nunca havia visto), e uma policial francesa, Sophie Neveu (Audrey Tautou, a Amélie, também com atuação bastante preguiçosa), em busca do Santo Graal pode ter funcionado razoavelmente bem nas páginas impressas, mas em sua transposição para a grande tela deixou muito a desejar.
Poucos aspectos no razoável (apesar de toda a fama) romance de Dan Brown são aproveitáveis e positivos. Entre estes estão a riqueza de detalhes históricos (nem todos reais, mas, enfim, detalhes), a forma curiosa como os "enigmas" são produzidos e resolvidos, as (falsas) coincidências que o autor trabalhou para confundir ainda mais realidade e ficção e a polêmica (que acabou se tornando muito maior que o próprio livro) em torno de uma suposta verdade escondida pela Igreja Católica ao longo dos anos. O problema é que nenhum destes aspectos são contemplados com decência no longa dirigido por Ron Howard.
Em compensação, a "parte ruim" do livro é o cerne do roteiro de Akiva Goldsman: a correria desenfreada, todos os clichês possíveis dos filmes policiais, a forma idiota e previsível com que os perigos são enfrentados pelos protagonistas... tudo extremamente fiel ao romance de origem, como manda o estilo cabeça-de-vento hollywoodiano. Goldsman tinha um trabalho duro, é verdade. Transportar os detalhes, por vezes muito confusos e minuciosos, do livro de Brown para as telas não era tarefa das mais tranquilas. Mas a produção ficou extremamente comprometida com tais escolhas, já que a característica que difere O Código Da Vinci de outras histórias comuns é justamente a polêmica união de detalhes históricos e ficcionais, assumida como verdade por muita gente (Dan Brown incluído).
Os poucos detalhes que conseguem algum sucesso na fita são realmente luxuosos, e bastante fiéis ao que pretendia passar o escritor em sua obra. Para quem leu O Código, o filme traz uma incomparável chance de apreciar os cenários, as obras e peças tão faladas no romance, bem como reviver a enérgica busca do Santo Graal por ângulos diferentes, com mais referências do que nunca. Mas a utilização precária de alguns personagens ou a aniquilação de algumas partes importantes da história irritarão os fãs mais ardorosos, que criaram uma expectativa tão grande acerca do projeto.
O Código Da Vinci, definitivamente, não funcionou no cinema. A visão de quem não leu o livro é de uma correria sabe-se lá porquê, um entra-e-sai de igrejas e locais históricos com sobreposições de imagens antigas, flashbacks fora de hora, bagunça visual e muito, muito blábláblá por quase nada. Diferente de similares que foram bem sucedidos tanto nas prateleiras das livrarias quanto nas salas escuras, caso de O Senhor dos Anéis, Harry Potter e outros, a história que acusa Jesus de ter sido casado com Maria Madalena derrapou, derrapou e não emplacou no cinema.
Claro que estou falando aqui sobre qualidade, e não do sucesso financeiro das produções. Afinal, O Código Da Vinci (o filme) mal estreou e já bateu recordes de bilheteria ao redor do mundo. Isso faz com que muita gente fique contente, mas entristece outros tantos. Enchem os bolsos, felizes, os executivos da indústria cinematográfica; esvaziam os bolsos à toa, decepcionados, os espectadores que estão em busca de obras com um pouco mais de qualidade. O melhor, caso queria ir assistir ao filme, talvez seja não ir ao cinema e ficar em casa lendo um livro. De preferência algum que não seja do Dan Brown.

O Sol de Cada Manhã (The Weather Man - EUA - 2005)
Em DVD/VHS

Por Bruno Reis
David Spritz tinha tudo pra ser feliz. Uma bela família, um pai talentoso e atencioso, um emprego na TV como "homem do tempo" com bom salário e reconhecimento... mas nada disso adiantava: ele simplesmente não conseguia relaxar. Preocupado com tudo e com nada ao mesmo tempo, David é desleixado com assuntos que considera idiotas (mas que nem sempre são) e atencioso com coisas que para ele significam muito (mas que na verdade não significam nada).
Assim, ele perdeu o controle de seu próprio destino. Separou-se da esposa (Hope Davis), mas continua tentando reatar mesmo que ela já está com outro. Viu os filhos mergulharem em problemas psicológicos (a menina é obesa e depressiva, o rapaz foi pego com maconha e está em uma espécie de "programa de reabilitação" mais suave) e não consegue se aproximar para tentar resolvê-los. Tornou-se cada vez mais infeliz com seu emprego, mesmo quando ótimas oportunidades apareceram, e tentou sem sucesso algum seguir a carreira que deu fama ao pai (Michael Caine). Finalmente, viu sua vida resumida a quase nada.
Com mais uma grande atuação de Nicolas Cage, um dos mais versáteis atores de Hollywood, e brilhante direção de Gore Verbinsky, O Sol de Cada Manhã mostra a dificuldade de um autêntico americano em "chegar lá", no topo da vida emocional, amorosa e profissional. O ótimo roteiro de Steve Conrad deixa bem claro que a conquista do sonho americano, diferente do que se imagina, não é a única recompensa que um adulto americano pode ter. Pelo contrário, tal preocupação pode ser a chave para uma devastadora derrocada pessoal.
Informações especiais:
A versão em DVD tem como destaque um material especial de aproximadamente uma hora. Neste espaço há detalhes sobre a produção do longa, escolha dos profissionais que formaram a equipe de direção e produção de arte, detalhes sobre a trilha sonora, um raio-x do roteiro e tudo sobre a profissão de "homem do tempo".

Os Reis de Dogtown (The Lords of Dogtown - EUA - 2005)
Em DVD/VHS

por André Graciotti
A falta de perspectiva diante das mudanças sócio-culturais que aconteciam nos Estados Unidos na década de 70 atingiu os jovens da Califórnia de maneira bastante singular. Enquanto a maioria do país aderia ao movimento hippie, a juventude californiana preferia passar o dia nas praias surfando. Não demora muito para que eles adaptem as manobras que faziam nas pranchas para o skate e reinventem completamente o "esporte das ruas".
Stacy Peralta, um dos skatistas renomados da época (e um dos principais membros do time Zephyr - equipe nascida da loja homônima de pranchas de surf), em 2001 dirigiu o premiado documentário Dogtown e Z-Boys. O filme foi tão bem sucedido mundo afora que Peralta resolveu escrever uma versão dramatizada de sua história. Depois de muitas dificuldades e o descaso de muito estúdios, mas contando com o apoio da diretora Catherine Hardwicke (do ótimo Aos Treze), Os Reis de Dogtown finalmente é realizado.
Nesta versão dramática e semi-ficcional dos Z-Boys, a história concentra-se em três skatistas do grupo, Jay Adams, Tony Alva, e é claro, Stacy Peralta, contando como passaram de meros surfistas fora-da-lei para famosos e badalados skatistas.
Catherine Hardwicke é muito competente em retratar a vida dos rapazes, desde seus dramas domésticos até suas empolgantes manobras em cima do skate. Aliás, as câmeras que acompanham as manobras são excelentes e deixam toda a ação bastante convincente, considerando que os atores tiveram que aprender a andar de skate em apenas dois meses.
Com apenas dois filmes no currículo, Catherine já mostra uma sensibilidade invejável para tratar de filmes com jovens. É de se notar como ela se utiliza de recursos muito inteligentes para contar sua história. Por exemplo, há uma tomada no início do filme que mostra Jay Adams pulando de skate, com uma prancha de surf debaixo do braço, da janela do seu quarto para a rua. Momentos depois que a equipe Zephyr é formada, vemos a mesma tomada, do mesmo plano, a ação repetida: Jay pulando de skate da janela de seu quarto para a rua, mas desta vez sem a prancha de surf. Um detalhe sutil, mas que simboliza perfeitamente a significativa transformação que acontecia para todos aqueles jovens. Mais adiante a mudança de rotina torna-se cada vez mais evidente quando dois do grupo espantam-se quando Stacy diz que foi para a Austrália mas não surfou, alegando que andou ocupado com competições de skate (ele mesmo parece surpreso em constatar sua transformação). O píer onde eles surfavam é talvez o maior símbolo de todo o grupo, tornando-se, ao longo da trama, quase um personagem com vida, sofrendo alterações em paralelo com a ascensão e declínio da equipe.
Além da direção hábil de Catherine, o filme ainda conta com uma fotografia muito bonita e direção de arte e sets muito bem contruídos e realizados (mesmo que algumas cenas exagerem no uso de CGI de fundo e acabam ficando demasiadamente artificiais).
Porém, se Stacy Peralta foi considerado um gênio como skatista, ainda precisa de muita estrada para se tornar um bom roteirista. Algumas situações simplesmente não levam a lugar nenhum, a história diversas vezes tende para o clichê, com situações de romances bobas (triângulos amorosos ou insinuações de ciúmes entre os personagens completamente dispensáveis), e o que no começo do filme aparentava ser o conflito principal da trama (a aceitação de Stacy entre os Z-Boys) é resolvida muito cedo e sem nenhum alarde. Além de que Peralta, numa atitude previsível como roteirista, coloca-se quase como protagonista (quando na verdade é o personagem menos interessante dos três) e sempre bonzinho e racional demais, enquanto Tony Alva em determinado momento se torna o vilão da história. Daí, por muito pouco o filme não se torna uma história clichê com personagens caricatos: o bonzinho, "puro" e sensato, contra o malvado, ambicioso e impulsivo. Tudo acompanhado pela incômoda sensação de que o filme pode acabar a qualquer instante.
E eu nem falei de Heath Ledger, que tem performance mediana: bons em alguns momentos, caricato em outros (e é visível sua dentadura para mudar o sotaque) e apesar de ser um dos personagens chave, também quase contribui para afundar a história. Mas felizmente o roteiro consegue se segurar no ato final e o filme encerra numa sequência muito bonita.
Para quem é fã de skates e todo o lifestyle dos skatistas e quiser conhecer a fundo a história do grupo que revolucionou a maneira de se andar sob rodinhas e praticamente inventou a modalidade de street-skate, talvez seja melhor alugar o documentário Dogtown e Z-Boys. Mas quem quer apenas se divertir e apreciar um filme com uma diretora inspirada e belas imagens, pode ficar com Os Reis de Dogtown (inclusive, o dvd possui ótimos extras), que não chega a ser decepcionante, mas é um filme que fica no "quase": É quase uma boa história, com atuações quase boas, um filme quase perfeitamente realizado, um filme quase importante. Talvez seria de fato tudo o que quase é se não fosse escrito por alguém cuja maior habilidade não está nas mãos, mas nos pés.

Boa noite e boa sorte (Good night, and good luck - EUA - 2005)

Por Bruno Reis
A história de George Clooney e seu filme, Boa Noite e Boa Sorte, teve mais um capítulo curioso na noite de 5 de março de 2006. Agraciado como "melhor ator coadjuvante" por sua interpretação no polêmico Syriana - A Indústria do Petróleo, o ator/diretor subiu ao palco e declarou "Tudo bem, então eu não sou o vencedor de melhor diretor". Era mais do que óbvio. Apesar da ótima atuação de Clooney no citado longa sobre a indústria petrolífera, aquele prêmio deveria servir como um consolo ao seu lado diretor.
Estava na cara que Clooney não venceria o Oscar por Boa Noite e Boa Sorte, filme que dirigiu, escreveu (junto com o roteirista Grant Heslov), atuou e co-produziu. Longe do estilo hollywoodiano de filmar e abordando assuntos que possuem muito mais do que a babaquice produzida diariamente na Meca do cinema, a obra do ex-ator de E.R. escancara a luta real de um homem por justiça e pela integridade e liberdade da imprensa de seu país na década de 50.
Edward R. Morrow, brilhantemente interpretado por David Strathairn, foi um famoso âncora de TV que resolveu encarar de frente a injusta caçada que o senador McCarthy empreendeu atrás de comunistas nos EUA, enquadrando, entretanto, qualquer pessoa que discordasse de seus métodos e idéias, fosse ela realmente comunista ou não. Uma verdadeira caça às bruxas que o jornalista, apoiado por seu diretor Fred Friendly (George Clooney), enfrentou com os punhos cerrados e a verdade sempre ao seu lado.
Com uma fotografia de tirar o fôlego, uma direção primorosa e um tratamento estético fora do comum, principalmente pelo preto e branco em que é apresentado o filme, Boa Noite e Boa Sorte pinça um complicado período da história americana para apresentar todos os seus lados. Mergulhado em seu charme noir, o longa tem tomadas tão incríveis quantos seus diálogos, às vezes rápidos e incisivos, em outras tomados de tensão e arrebatamento.
O roteiro é um show à parte, fazendo com que o espectador caia direto na CBS da época e se sinta como um dos repórteres, acuado, temeroso mesmo sabendo que contam com a verdade ao seu lado. Enquanto observamos Morrow enfrentar problemas internos, com os diretores da TV e externos, com os políticos e a opinião pública, é impossível não transportarmos toda a confusão para os dias de hoje, em que CNN e Fox News são mais do que canais de TV - são instrumentos da alienante propaganda governista americana.
Boa Noite e Boa Sorte mostra que Clooney tem mesmo um futuro brilhante na direção de filmes. Após realizar Confissões de uma mente perigosa com bastante esmero, este novo trabalho dá sinais claros de que o lugar do galã é mesmo atrás das câmeras, para o desespero das fãs. Mas, ao que parece, elas não precisam se preocupar tanto: o seu lado ator, agora "oscarizado" e tudo mais, sempre aparece ao menos para uma pontinha.

O Plano Perfeito (Inside Man - EUA - 2006)

Por Bruno Reis
Um assalto a banco que deveria ser perfeito. Um plano minuciosamente arquitetado para que os ladrões saiam de lá tranquilamente com tudo o que querem, consigam despistar a polícia e vivam para desfrutar de seu sucesso. Você deve estar pensando, "eu já vi esse mote em algum lugar...", e você não está enganado. O assalto dos sonhos é um tema bastante recorrente em filmes do gênero, e nem sempre tais filmes funcionam tão bem quanto o plano dos ladrões. Alguns funcionam muito bem: 11 Homens e um segredo é exemplo de um ótimo "filme com assalto perfeito", onde atores, trama e direção se equilibram, afinados.
Dirigido por Spike Lee (como diretor contratado; este filme não é um projeto original do diretor), O Plano Perfeito não chega ao nível do citado 11 Homens de Sorderbergh, mas vai além do que normalmente tais obras tendem a oferecer. Uma gangue entra em um banco e faz com que todos que lá estavam vistam roupas idênticas à que usam os próprios ladrões, para confundir a polícia. Capitaneados pelo sagaz Dalton Russel (o sempre competente Clive Owen), a gangue faz uma grande balbúrdia no centro nervoso da palpitante Nova York, cidade que Lee envolve com suas próprias cores e lutas - mostra-se racismo, intolerância religiosa, sexismo e outras manifestações ideológicas tortas em meio à luta silenciosa entre polícia e ladrões.
Aliás, a política é um detalhe muito recorrente por toda a extensão de O Plano Perfeito, seja no âmago da história, seja nas pequenas relações que se dão entre incautos clientes do banco e ladrões ou polícia. Com isso, Spike Lee e o roteirista Russel Gewirtz conseguem criar uma atmosfera tensa e surpreendente, com pequenas reviravoltas e problemas que espirram no alto escalão da polícia e do próprio banco que está sendo roubado.
Paralelo a isso, também dão ótimo fôlego à fita as estratégias boladas pela gangue e a verdadeira motivação do assalto, sempre questionada ao longo da história. O interessante e conflitante triângulo formado pelo policial que chefia a operação, Keith Frazier (Denzel Washington em ótima forma), pela misteriosa mulher que presta "pequenos grandes serviços" a ricaços (Jodie Foster, talentosa e bonita) e pelo chefe dos ladrões Dalton Russell deixa sempre alguma dúvida sobre de que lado realmente estão os envolvidos, quais seus motivos, o caráter de cada um, etc.
O Plano Perfeito deixa um pouco a desejar em seu ritmo. O final da fita não se revela tão surpreendente quanto poderia ser, e o desenrolar após o fim do assalto, apesar do tom político que assume de vez e que vinha sendo ensaiado ao longo do filme, acaba destoando em ritmo e interesse do resto da história. O roteiro ainda joga luzes sobre as dúvidas de caráter de seus personagens a fim de suscitar alguns questionamentos, mas acaba por escorregar em seus próprios artifícios.
O trabalho de Spike Lee parece ter sido de fugir do comum, como se tivesse recebido um pedido: "faça um filme de assalto a banco, mas faça o seu filme de assalto a banco". Roubo perfeito sim, mas sem esquecer que há um mundo ao seu redor lotado de injustiça, intolerância e desonestidade em todos os aspectos. Foi observando as coisas por esse espectro que O Plano Perfeito conseguiu ser mais do que um filme qualquer e se tornou um ótimo divertimento - com conteúdo.

Sympathy For Lady Vengeance (idem - Coréia do Sul - 2005)
baixado na internet

por André Graciotti
Você acha que todas as histórias já foram contadas? Todos os temas já foram explorados? Que o tema "vingança" é mais batido do que qualquer filme da Meg Ryan? Então você precisa conhecer Chan-Wook Park. Esse diretor sul-coreano inventou de fazer uma trilogia sobre vingança e esbanjou talento e originalidade. O primeiro foi Sympathy for Mr.Vengeance, de 2002, (ainda inédito no Brasil, é claro...), seguido por Oldboy, de 2003 (que só chegou nos cinemas daqui em 2005, é claro...). Como se já não bastasse ter feito simplesmente dois dos maiores clássicos da década, eis que ele fecha sua trilogia com Sympathy for Lady Vengeance.
Mas não pense que, por serem divulgados como uma trilogia, tratam-se de sequências. A única semelhança entre eles é o tema "vingança" e o estudo psicológico-moral de seus personagens em função de uma grande desgraça em suas vidas. Desta vez, a protagonista é uma mulher que, ao sair da prisão após 13 anos, busca vingança por ter ido presa no lugar do marido.
Logo nos créditos de abertura já é possível notar que Lady Vengeance é o mais visualmente elaborado e rebuscado dos três. A fotografia, os efeitos de edição e os enquadramentos são um deslumbre à parte. Park filma como quem pincela com a câmera. Seu virtuosismo é exibido aqui ao extremo. Em determinado momento do filme, a câmera começa numa geral de uma rua e entra num apartamento por uma janela fechada (!) - lembrei na mesma hora do filme Irreversível, que utiliza recurso semelhante, mas para atravessar a janela de um carro - Em outro momento, num monólogo da protagonista, as cores do fundo se alteram de acordo com a intensidade emocional da personagem. Enfim, tudo demonstra que este provavelmente foi o filme tecnicamente mais elaborado e estudado da trilogia. Para se ter uma idéia, na edição original o filme ia perdendo as cores gradualmente até terminar completamente em preto e branco, mas reza a lenda que Park gostou tanto da direção de arte que resolveu lançar o filme oficialmente todo em cores (O DVD coreano possui as duas versões).
É uma pena que não se pode dizer o mesmo da história (pelo menos não com o mesmo fervor), que não possui uma trama tão complexa e cheia de reviravoltas como Sympathy for Mr.Vengeance ou uma inteligentíssima surpresa final como Oldboy. Os motivos da vingança de Lee Geum-Ja são bem óbvios e o mote de apego familiar não possui o mesmo emaranhado de situações surpreendentes como tinha Mr.Vengeance. Mas o fato de ser o filme mais fraco (leia-se "o menos foda") da série não quer dizer que seja ruim. Pelo contrário. Lady Vengeance ainda é um filmaço, daqueles para ver e rever e se orgulhar de ter vivido na mesmo época de um cineasta desses.
E como nos outros dois filmes, este também tem a sua sequência antológica. Ela acontece numa reunião dos pais que tiveram seus filhos assassinados e culmina numa ação que é tão espetacular, e ao mesmo tempo tão absurda, que é difícil saber se caímos na gargalhada ou se ficamos chocados com o que acontece. A sequência contém um humor negro, sádico, sarcástico, ácido, dramático e violento, tudo ao mesmo tempo. Simplesmente genial.
Com sua trilogia, Chan-Wook Park criou uma obra que desmembra o sentimento de vingança em algo complexo, que merece estudo e ponderação. Sua protagonista em Lady Vengeance, por exemplo, é quase uma super-heroína: usa capa preta para entrar em ação, possui uma arma especial, usa sombra vermelha nos olhos o tempo inteiro e até improvisa uma máscara para dar o golpe final. É um personagem de fácil empatia. E assim como os pais das crianças assassinadas citados no parágrafo acima, são todos mostrados em situação de vulnerabilidade, de dor e perda, quando facilmente passam de cidadãos comuns à pessoas movidas pelo ódio e desprezo, capazes dos atos mais desumanos e absurdos. Park satiriza tudo isso e traz à superfície a inata e eterna vontade humana de revidar, de dar o troco, de querer sair sempre por cima.
Levando 5 anos para concluir sua trilogia, Park comprova que vingança é, de fato, um prato que se come frio. Como resultado, ele nos ofereceu um banquete. E dos mais deliciosos.
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NOTA:
Se você não se conforma com o atraso das estréias dos filmes "não-hollywood" no Brasil, fica revoltado com a negligência das salas de cinema nas cidades pequenas (ou seja, as que não estão no Rio ou São Paulo), que adoram lotar as sessões com filmes infantis e os filmes-novela da Globofilmes, não precisa mudar de país. Não ainda. Aqui vai um passo-a-passo para você baixar o filme com legendas em portugês.
1 - Baixe algum software para executar arquivos torrent. O Bitcomet é uma boa opção.
2 - Baixe o arquivo torrent do filme. Aqui está o de Sympathy for Lady Vengeance
3 - Abra o torrent dentro do Bitcomet e peça o download.
4 - Baixe a legenda
E é isso. Bom filme! ;)

Firewall - Segurança em Risco (Firewall - EUA - 2006)

Por Bruno Reis
O peso da idade deve ser algo realmente doloroso. Além da fraqueza física, refletida nos movimentos outrora comuns que passam a exigir um grande esforço, há o tormento da mente debilitada. Talvez o grande astro Harrison Ford, famoso por filmes como Blade Runner, Indiana Jones e Star Wars, esteja passando por maus bocados como estes citados acima. Ou então está precisando muito de dinheiro. Só essas opções são capazes de explicar a sua escolha por Firewall - Segurança em Risco.
O filme conta história de Jack Stanfield (Harrison Ford), especialista em segurança de redes de um grande banco americano. Ele arma uma verdadeira muralha para seus empregadores, e por isso torna-se respeitado e conhecido por todos. Pai de família dedicado, Jack vê-se em grande enrascada quando uma gangue liderada por um inglês que usa vários nomes (Paul Bettany, salvando o filme da derrocada total com boa atuação) sequestra sua família e pede que ele desvie grana dos seus correntistas para contas excusas em paraísos fiscais. Original, não?
Realizado a partir de um roteiro de temática batida e fraca, o longa ainda se vale de artifícios medíocres para tentar ganhar o público. Posando de modernoso, o personagem Jack Stanfield faz maracutais fantásticas utilizando o iPod Nano da filha (cor de rosa), como transferir 100 milhões de dólares para um banco das Ilhas Cayman. Sem contar o que ele ganha dando a seu cachorro uma coleira muito tecnológica (não vou dar mais detalhes pra não configurar um spoiler) e a forma como ele usa os celulares com câmera fotográfica que sempre estão ao seu redor. Enfim, um homem moderno.
No início do filme, o ritmo de Firewall parece prestes a emplacar como um bom filme de ação, mas a impressão é logo desfeita: tudo ali é deja vu, ja foi feito milhares e milhares de vezes em outros filmes, e geralmente com resultados bem melhores. Os filmes de ação contam com pouca renovação de estilo, não é à toa vêm perdendo espaço nas bilheterias, mas também não é necessário telegrafar tanto cada acontecimento. Além disso, Ford já não dá mais pra herói imbatível. Tudo dele soa forçado, e é irritante a quantidade de "planos infalíveis" que seu pesonagem bola durante a fita pra tentar livrar a família das garras dos malvados bandidos (e todos dão errado).
Realmente, é triste ver a decadência de alguns astros que fizeram parte do rol de preferidos dos cinéfilos por tantos anos. Talvez seja necessário que ele acorde para o mundo em que vive. O nosso imortal Indiana Jones devia apender com alguns colegas de Hollywood sobre a hora de mudar a carreira de rumo. Tente um besteirol a lá De Niro, umas comédias inteligentes como tem feito Jack Nicholson, ou até se candidate a governador como Schwarzenegger. Mas como herói não dá mais. Se ele tiver dificuldade em entender, alguém pode desenhar pra ele...

Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice - Inglaterra - 2005)

Por Bruno Reis
Datado do século 18, o romance Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, é o precursor das comédias românticas como conhecemos hoje em dia. O mote você conhece bem: moça e rapaz se odeiam à primeira vista, mas com o tempo vão descobrindo um outro tipo de sentimento mútuo: o amor. Tal mote já foi exaustivamente filmado em Hollywood (e em outros lugares) com comédias românticas de segunda linha, geralmente causando sono e decepção em quem espera um pouco mais de uma ida ao cinema.
Mas este, felizmente, não é o caso do longa-metragem inglês de 2005, Orgulho e Preconceito.Dirigido pelo estreante Joe Wright, o filme conta com a pujante história da pouco abastada família Bennet, e suas 5 filhas encalhadas, cercando o romance principal e dando a este mais consistência e graça.
Passando por dificuldades financeiras, a família comandada pelo sr. Bennet (Donald Sutherland, em mais uma ótima atuação) não consegue casar nenhuma das filhas, principalmente com nenhum bom partido (leia-se: rico). Sra. Bennet, a matriarca (a engraçadíssima Brenda Blethyn), já se encontra em pleno desespero quando finalmente chega na cidade o solteiro e rico Sr. Bingley, acompanhado do amigo sr. Darcy. As duas filhas mais velhas da família, a sonhadora Jane (Rosamund Pike) e a irreverente Elizabeth (Keira Knightley), tomam caminhos opostos: enquanto a primeira se interessa pelo simpático sr. Bingley, a segundo passa nutrir um certo ódio pelo aristocrático sr. Darcy (Matthew MacFadyen), que a trata com desprezo.
Este é o ponto de partida da história, que segue mostrando como as diferenças entre as classes britânicas da época eram ferrenhas e beiravam a intolerância. O casal que inicialmente despontava como principal, Jane e Bingley, torna-se secundário à medida em que sr. Darcy e Lizzie vão se desentendendo de forma graciosa, porém com todos os motivos para uma verdadeira briga. Orgulho e Preconceito mostra ainda diversas tramas paralelas, sempre com personagens e histórias bastante interessantes, que acabam levando ao constante encontro dos personagens de MacFadyen e Knightley (ambos muito bem em seus papéis).
Apoiada em uma fotografia deslumbante e cenários de cair o queixo, a trama central vai tomando forma quando sr. Darcy separa o casal Jane-Bingley, alegando que a menina não tem cacife pra casar com o amigo. Lizzie descobre e passa a fomentar uma cruzada contra Darcy, ao mesmo tempo em que ele já dá sinais bem claros de que está caído por ela. Entre encontros e desencontros, e ainda contando com a interferência da tia do rapaz, em rápida e marcante aparição de Judi Dench, a bela história de amor do casal é muito bem construída.
O roteiro desenvolvido por Deborah Moggach mostra uma narrativa ritmada, com personagens interessantes que vão se mostrando ao longo da trama e ótimas tiradas cômicas. Destaque para a cena em que as mulheres da família Bennet se arrumam em dois tempos para a chegada-surpresa da dupla Bingley-Darcy, e também para o charmoso baile, por onde a câmera desliza fluentemente pelas rodas de conversas e encontra os personagens quase que por acaso. Apenas um detalhe não me agradou muito: o final da fita poderia ter sido mais interessante.
O grande trunfo de Joe Wright em Orgulho e Preconceito foi conseguir contar uma história já manjada (essa não foi a primeira e nem será a última versão para o clássico inglês) com extrema simpatia, prendendo o espectador do início ao fim sem perder o pique. O diretor também mostrou que a força do conhecido mote "casal que se odeia mas se ama" continua interessante até hoje, por mais que as centenas de comédias românticas chulés produzidas nos dias atuais tentem estragar o brilho dessa bonita história de amor.

Munique (Munich - EUA - 2005)

Por Bruno Reis
Toda ação gera uma reação. Essa é a premissa básica dos conflitos que perduram anos e anos pelo mundo, seja na África, na Europa Oriental ou no Oriente Médio. O mais famoso deles, e também dos mais sangrentos, é entre Israel e Palestina, que já dura tanto tempo que talvez ninguém saiba exatamente quando começou. Além disso, confesso nem entender muito bem o motivo desta pendenga e ter uma certa preguiça pra esse assunto. Munique trata da vingança de Israel contra os palestinos, que dizimaram parte de sua equipe esportiva nas Olimpíadas de 1972.
Fui ver o filme mais interessado em conferir uma história bem dirigida por Spielberg (coisa que ele não anda fazendo com frequência) do que querendo saber das implicações políticas que o filme traz em sua essência. Acontece que é simplesmente impossível ficar à margem do contexto histórico, por mais vontade que se tenha de não se envolver. O diretor fez questão de mudar os fatos para dar aos judeus uma colherzinha de chá, uma face mais branda.
Dizer que Steven Spielberg fez a versão hollywoodiana de um drama de feições muito mais intrincadas do que se vê na tela é bater em uma tecla já gasta. Invariavelmente, o famoso diretor transforma ótimas idéias em filmes-família, suavizando-as o quanto pode para que a obra seja vista e compreendida por qualquer moleque de 11 anos. Em Munique ele até tenta, mas não consegue estragar o filme com sua benevolência gratuita. O longa funciona como um bom thriller, é bem feito e mostra bastante inspiração na direção de cena.
O elenco não compromete, mas também não chega a ser destaque. Eric Bana falha como protagonista, resultado da sua falta de identificação com a platéia, e só não abre essa vaga para outro personagem secundário porque todos eles não passam disso: secundários. Há aqui e ali algum bom momento, mas aparentemente todos eles se contaminaram com o maior erro de Spielberg em Munique: fazer terroristas "do bem" e "do mal". É óbvio, o lado do bem cabe aos judeus, que parecem sofrer terrivelmente com a tarefa de aniquilar os seus maiores inimigos. Convenhamos, isso não deve ser nenhuma tragédia para os terroristas de lá.
Cenas como a da menina que atende ao telefonema que mandaria para os ares o seu pai, um dos alvos do grupo judeu, certamente suavisam a culpa e a maldade dos terroristas de Israel, colocados no filme como injustiçados, em busca de uma vingança a qual eles não gostariam de ter que recorrer. Na verdade, o conflito é muito mais tenso do que o mostrado, e a vingança foi muito mais sangrenta e sem escrúpulos do que o diretor faz parecer.
Munique não arrefece de vez devido ao ritmo imposto aos acontecimentos. Quanto mais gente os judeus matam, piores os inimigos voltam e mais terror eles causam. Isso faz o círculo vicioso da guerra girar rápido, diminuindo o tempo de cada um dos componentes do grupo principal até que eles, agindo até o momento em total segredo, começam a ser visados e perseguidos. O clima de eterna tensão puxa os nervos do filme a boas alturas, e isso garante uma boa diversão.
A fotografia de Munique nos remete aos filmes da época em que ele se passa, década de 70, e acaba por se tornar um dos trunfos da fita. Imagens e clima daquela época, bem como algumas tomadas à lá "filme de ação anos 70", dão um charme extra à produção e aumentam a sensação de registro histórico (sensação diluída nas irrealidades do roteiro). A edição também reserva bons momentos, conferindo agilidade às cenas de ação que realmente importam e são força ao filme.
Longo demais, mentiroso demais, um pouco mais suave do que deveria, recebido pela crítica com muito mais estrondo do que merecia. Munique até consegue segurar a onda como um bom filme de ação, mas falha completamente ao tentar ser um registro histórico de uma época conturbada em um conflito de proporções magnânimas. Talvez se tivesse sido dirigido por alguém com a coragem inversamente proporcional à de Steven Spielberg, daria um épico. Mas, infelizmente, não chega nem aos pés disso.

Johnny & June (Walk the Line - EUA - 2006)

Por Bruno Reis
Johnny Cash, um dos maiores ídolos da música americana, morreu em 2003, apenas quatro meses após a morte de sua mulher, June Carter. Este fato mostra, por si só, como era forte a ligação do casal que protagoniza Johnny & June, cinebiografia do músico que une carreira e vida particular do Homem de Preto.
Dirigido e co-roteirizado por James Mangold (auxiliado por Gill Dennis), o longa esmiuça a relação entre Cash e Carter desde o seu início, em 1955, até o momento em que se casam, em 1968, e mostra toda a luta do cantor para conquistar a mulher dos seus sonhos. Tido como um dos mais fantásticos músicos de seu tempo, o personagem, representado com extrema maestria por Joaquin Phoenix, passa por momentos conturbados: envolvimento com álcool e drogas, prisão e confusões em hotéis e shows são uma constante logo que sua carreira deslancha. E a presença de June Carter é uma das poucas razões que fazem Cash crer que ainda pode vencer as dificuldades.
Johnny & June tem uma belíssima história em mãos, mas apresenta falhas como filme. O roteiro consegue se fragilizar, simplificando demais os acontecimentos e fazendo uma espécie de colagem despretensiosa dos momentos da carreira do cantor. Por vezes, o script chega ao ponto de mudar a personalidade de Cash (algo que a atuação de Phoenix tenta ao máximo reduzir), deixando de lado sua face dura por momentos mais emotivos. A direção de Mangold não ajuda, mas também não atrapalha. O diretor deixa o filme fluir, apesar de em alguns momentos dar a impressão de não ter as rédeas em mãos.
A atuação de Phoenix e Witherspoon são grandes destaques. A June Carter da bonitinha Reese não poderia ser mais perfeita, misturando comicidade e drama na medida exata que pedia a personagem. A ternura conferida a ela pela atriz deixa a história mais crível, e entendemos exatamente porque Johnny Cash caiu de amores pela cantora. Além dos dois, a escolha dos atores para dar suporte à fita foi muito bem realizada: os companheiros de turnê do casal (do naipe de Jerry Lee Lewis, Orbison e Elvis) foram muito bem interpretados.
Entre as falhas do roteiro, as mais gritantes dizem respeito aos problemas familiares de Cash. Sua briga eterna com o pai, que o culpa da morte prematura do irmão, nunca fica clara. Por mais que Cash respeite o velho e faça de tudo para superar o passado, o pai sempre guarda uma mágoa que não temos certeza de onde saiu. Além disso, ao final do filme não se sabe se essas divergências foram ou não superadas, pois o roteiro não dá um fim ao assunto. Outra personagem estranha é a primeira esposa de Cash, Vivian. Mesmo quando os dois estavam bem, a mulher era sempre retratada como fria, descrente e amarga. Um exagero, no mínimo. Não havia a necessidade de se criar uma personalidade tão feia para a moça, apenas para contrastar com a doçura de June.
Mesmo com a bela história de amor, companheirismo e compreensão do casal principal, os momentos mais empolgantes do filme são as apresentações musicais de Cash. Neste ponto Mangold conseguiu uma poderosa combinação de acertos, ajudado obviamente pela atuação de Joanquin Phoenix, que canta (e muito bem, assim como Reese) as músicas do filme e interpreta todos os trejeitos do cantor. A apresentação histórica na prisão de Folsom, já no finzinho, é um dos momentos mais felizes da fita.
Ao final da exibição, é perceptível que Johnny & June poderia ser muito mais do que é. Fatos tão impressionantes do casal, aliados à vida tumultuada de Cash e sua carreira fantástica renderiam, com um pouco mais de profundidade por parte da produção, um grande filme. Mas, ainda assim, é possível se emocionar com a cinematográfica história de amor do casal número um da música americana.

O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain - EUA - 2005)

por André Graciotti
O Segredo de Brokeback Mountain é um pouco mais do que eu esperava. E um pouco menos do que falam dele. De imediato, era fácil de se esperar duas coisas do novo drama de Ang Lee: 1 - Que com tanto alvoroço da mídia e o favoritismo ao Oscar, eu temia que o filme pudesse ser um novo Menina de Ouro, ou seja, mais um caso em que o peso do nome de seu realizador esconde um filme repleto de clichês e pieguices; 2 - Que o filme tivesse tanta atenção pelo simples fato de tratar de um relacionamento gay, sufocando qualquer avaliação mais profunda de seu enredo.
Ainda bem, minhas suspeitas estavam erradas. Ok, o filme tem todos os aspectos que agradam às grandes premiações como o Globo de Ouro e Oscar (o que é sempre duvidoso), mas ao contrário de Menina de Ouro, Brokeback Mountain não apela ao dramalhão. É uma história triste sim, mas não há lágrimas fáceis, a trilha não é carregada emotivamente e não há nenhum impacto visual explícito nesse sentido (você não vai ver imagens de gente ficando tetraplégica ou aleijada antes de morrer tragicamente no auge de alguma conquista pessoal). Pelo contrário, Ang Lee, que soube utilizar todo seu virtuosismo visual no ótimo O Tigre e o Dragão, aqui permite-se sabiamente a uma direção econômica, estática, clássica, sem grandes movimentos de câmera ou enquadramentos inusitados, sabendo muito bem que a história que tem em mãos flui por si mesma.
Mais do que seu diretor, Brokeback Mountain destaca-se principalmente pela sua dupla de protagonistas. Jake Gyllenhaal (um dos atores jovens favoritos de hollywood hoje em dia), sempre talentoso, exibe com precisão um personagem simpático e extrovertido, ao mesmo tempo em que transparece ter emoções e pensamentos contidos sobre o mundo e si mesmo. Heath Ledger também é bastante competente em demonstrar a personalidade rancorosa e de fala moderada de seu Ennis Del Mar, apesar de às vezes exagerar no seu sotaque "boca cheia". Porém, Heath acaba tendo maior destaque no filme em função de suas cenas serem as melhores do roteiro, especialmente da metade pro final, enquanto o personagem de Gyllenhaal se resume a viver situações óbvias e desinteressantes, que poderiam ser facilmente eliminadas na edição sem fazer nenhuma falta na história (como por exemplo, a do jantar em que Ana Farris aparece para fazer uma ponta).
A edição do filme é um dos pontos problemáticos. Primeiramente, o início que conta como os dois cowboys se conhecem é demasiado longo, sendo que a maioria das cenas não diz nada de significativo (sim, sei que uma das intenções aqui é mostrar a monotonia e a mesmice do serviço que faziam, mas são poucas as cenas que funcionam realmente nesse sentido, de forma que incitem à aproximação dos dois). E após a primeira hora de filme, tive a sensação de que o roteiro parece ter sido escrito em parágrafos soltos, como por exemplo "Jack almoça com esposa e discute com o pai dela - fade out - Ennis recebe carta de Jack e vai ao correio responder - fade out - Esposa de Ennis chora em casa - fade out...". A narrativa sofre por parecer um retalho de sequências isoladas, deixando o ritmo do filme bastante irregular. Outro exemplo disso é um esquisitíssimo flashback que interrompe bruscamente a cena clímax do filme, quando ambos discutem porque não estão juntos e desabam em pranto ao perceber as pessoas que se tornaram por causa do outro. Só nos damos conta de que se trata de um flashback por causa da mudança do visual dos personagens (aliás, a maquiagem de envelhecimento de Ennis é uma vergonha de tão ruim).
Mas se a edição falha, Ang Lee consegue "segurar" na direção. É fascinante constatar como o cineasta retrata o contraste entre a cidade e as montanhas de Brokeback (local de encontro dos dois personagens ao longo dos anos): Na montanha, os lagos são estáticos e impecavelmente espelhados, as paisagens são belas, intactas e o céu é de um azul quase onírico, enquanto a cidade é retratada de forma seca, árida e desaturada. As vidas com suas esposas são escuras, monótonas e desinteressantes. O encontro na montanha representa para eles a fuga da vida social e padrão. É quase uma breve viagem a um universo paralelo, onde eles podem ser realmente felizes por alguns dias. E é tocante ver como esta rotina se arrasta por décadas na vida dos personagens, incapazes de abrir mão da tal "vida social padrão" (mais por parte de Ennis, que diz não poder largar emprego e a família, enquanto Jack se mostra sempre disposto a abrir mão de tudo).
É curioso como em nenhum momento duvidamos da idéia de que eles, de fato, não são gays. Tanto que os vemos atraídos por outras mulheres e fazendo sexo com suas esposas. O que aconteceu, para eles, foi uma atração fortuita por alguém do mesmo sexo. Essa impressão é sutil, mas essencial para fazer funcionar todo o drama e angústias vividas pelos personagens (se eles fossem gays assumidos, seria difícil aceitar a idéia de que eles não conseguem largar suas esposas e se entregar de vez ao romance). Mais um grande mérito de Ang Lee, que soube guiar a questão com sensibilidade e inteligência.
Com uma história forte e excelentes atuações (merece destaque também Michelle Williams, provando finalmente, ao contrário de Katie Holmes, que existe vida talentosa pós-Dawson's Creek) O segredo de Brokeback Mountain pode não justificar o motivo de tanto alvoroço, mas também não deixa de ser, acima de quaisquer rótulos, um bela história de amor, contada com honestidade, simplicidade e sutileza. E se é verdade que o sucesso de Brokeback Mountain é um passo importante para a quebra de tabus (tanto na sociedade quanto nas grandes premiações), então ele merece um valor extra, que vai muito além do próprio filme.

Soldado Anônimo (Jarhead - EUA - 2005)

Por Bruno Reis
Abro esta resenha com algumas perguntas: filmes de (ou com) guerra devem sempre ser políticos? Devem ser totalmente parciais? Qual o limite entre a crítica cinematográfica inteligente e a busca nonsense por significados ocultos em obras contemporâneas? Por que as pessoas tendem a caçar detalhes para enquadrar os cineastas nesta ou naquela divisão política?
Soldado Anônimo é um filme de guerra sobre o nada. É a história de um grupo de soldados, os marines, que foram para a Guerra do Golfo de 1991 preparados para uma luta sangrenta, prevendo milhares de baixas e muita tensão, e acabam voltando pra casa sem participar de praticamente nenhuma ação. Frustrados, cansados e, mesmo sem uma luta de verdade, marcados psicologicamente para o resto de suas vidas.
O filme é baseado no livro de memórias de Anthony Swofford, interpretado com brilhantismo por Jake Gyllenhaal, sobre o período em que serviu ao exército americano na citada guerra. Sempre alertas a qualquer sinal de conflito e isolados no mais ermo dos desertos do Kuwait, esse grupo de jovens passaram mais de 300 dias se preparando para uma luta armada que não aconteceu. Conviveram com um terror psicológio extremo, com a distância da família e com a dureza de ver suas esposas, namoradas e amigos levando a vida normalmente a milhares de quilômetros. E tudo isso para nada.
O diretor Sam Mendes (de Beleza Americana) prende-se na história de Swofford nesta campanha, utilizando-o como um exemplo para todas as mazelas e comportamentos estranhos dos marines. Assim, Soldado Anônimo configura-se não como um filme de guerra, mas como a história de um rapaz que vai para a batalha meio sem querer, se empolga com o entusiasmo e as ordens que mal sabe de onde vem (o governo é uma sombra fraca, uma voz distante, e não se mistura com os "reles guerreiros"), passa os dias treinando, limpando a arma, se masturbando e pensando bobagens em relação às coisas e pessoas que estão longe. Um desperdício, diriam uns. Um aprendizado, diriam outros. E nenhum dos dois está errado.
A direção competente de Mendes e o roteiro sem exageros de William Broyles Jr. dão um tom leve à fita. Há, surpreendentemente, bastante humor, uma certa tranquilidade nas areias beges do Kuwait, que nos faz simpatizar com aquele estilo de guerra, sem sangue, sem dores. A animação dos soldados e as "figuras" tiram um pouco da tensão pré-conflito. O que é bom, já que o filme não fala sobre guerra, e sim sobre pessoas, jovens que deixaram suas vidas sossegadas para lutar por interesses que nem eles conhecem.
Mas, mesmo com essas "aliviadas", o trauma que se constrói enquanto a história avança vai ficando cada vez mais claro. O desespero de um dos soldados (interpretado pelo ótimo Peter Sasgaard) ao ser impedido de dar o que seria seu único tiro em toda a guerra é emblemático: mesmo sem ter matado nem atirado em ninguém, e nem ter visto nenhum inimigo real, ele já está marcado para a vida inteira com o trauma de estar no limite entre a vida e a morte e ter pouco ou nenhum controle sobre isso.
Soldado Anônimo traz, além de Gyllenhaal, que se destaca mais a cada filme desde Donnie Darko, o ótimo Jamie Foxx, em mais uma atuação arrebatadora, como o intransigente superior que chefia aquela divisão de marines. Apesar do cenário repetitivo (estamos em um deserto, lembre-se), a fotografia também é destaque, principalmente quando o sol se põe.
Mas, mesmo sendo um ótimo filme, Soldado Anônimo não vem recebendo grandes críticas ao redor do mundo. Em parte porque Mendes resolveu homenagear alguns filmes de guerra durante o longa (o que na minha opinião não faz a menor diferença no resultado final) e, dizem, não foi bem sucedido. Mas a maioria das críticas se refere ao suposto clima pró-Bush do filme. Por colocar soldados reclamando que não matam ninguém, os críticos começaram a dizer que Mendes prefere a "segunda versão" da Guerra do Golfo, a atual, muito mais sangrenta e de perdas consideráveis para o exército americano. Acusaram o diretor de ser a favor das mortes.
Pra mim, Soldado Anônimo é uma história de pessoas, e não sobre uma guerra. Sem fundo político, sem panfletagem (como ja defendeu o próprio diretor em entrevistas sobre o filme), apenas mostrando o dia a dia dos soldados daquela época. Não adianta buscar significados escusos, mesmo que seja este um filme que mostre uma guerra, ou seja, política pura. Nem toda obra deve ser parcial. A imparcialidade, o estilo chapa-branca e a leveza são, pra mim, as principais marcas deste longa. Pra outros, esses são os defeitos do filme.
Ainda prefiro a liberdade de falarmos do que quisermos, da forma que desejarmos, sem precisar assumir um lado do problema. Liberdade de expressão e de pensamento. Soldado Anônimo quer apenas isso. Em uma época que virou moda criticar a política americana, quem não o faz começa a ser crucificado. Uma caça às bruxas ao avesso, perigosa e desnecessária.
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